Análise
The Outfit
 
Bruno Abreu
 
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Jogos de guerra e tiroteio podem estar sobrando no Xbox 360, mas a proposta da Relic Entertainment com The Outfit desvia um pouco do lugar comum graças a uma idéia: "Destruição sob demanda".

O conceito parte da fórmula básica de jogos de guerra como Battlefield, onde exércitos rivais lutam para dominar um mapa, só que desta vez os veículos e artilharias caem do céu, literalmente, obedecendo aos desejos do jogador. O objetivo é inserir um pouco de estratégia e criar um conflito menos sério e realista em nome da diversão, mas na prática, a má execução destas idéias rendeu um jogo que não diverte nem pelo tiroteio e muito menos por suas ambições de estratégia em tempo real.

Guerra com delivery

Outfit oferece uma nova forma para exterminar nazistas, a começar pela seleção de personagens que permite a escolha, sempre no início de cada fase, entre três típicos militares durões: Deuce Williams, uma figura de óculos Ray-ban que vive com um charuto na boca e carrega uma bazuca e pistola .45; JD Tyler, um afro-americano armado com uma combinação bastante eficaz de escopeta e rifle; e Tommy Mac, um "redneck" com cara de poucos amigos que carrega uma metralhadora e um lança-chamas para chamuscar alguns traseiros alemães.

As missões começam à moda Battlefield, com o jogador escolhendo o ponto do mapa onde irá nascer. Os objetivos sempre envolvem dominar os demais pontos e apossar-se das tecnologias que eles oferecem ¿ se dominarmos uma fábrica de tanques, podemos construir os blindados; se capturamos uma antena de rádio, ganhamos a opção de chamar um ataque aéreo e assim por diante. Cada ponto serve também como um "check-point", ou um lugar mais próximo para renascer caso nosso comandado seja morto na missão, o que elimina grande parte do desafio, deixando o jogo com o aspecto de um Battlefield offline, sem restrições ao número de vezes que o jogador morre.

Para dominar os diversos pontos do mapa o simples ato de correr e atirar como nos jogos de tiro em primeira pessoa se mostra um tanto ineficaz diante do bom esquema de defesa armado pelos nazistas. A solução, e o verdadeiro propósito do jogo, é usar um mínimo de tática e ordenar, via rádio, a "Destruição sob Demanda": unidades e estruturas de suporte que vão desde simples soldados e tanques a artilharias pesadas para serem fixadas ao chão. Tudo cai de pára-quedas, prontinho, diante dos olhos do jogador. Em alguns mapas, é possível até pedir a entrega de uma ponte inteira para cruzar um rio ou precipício.

A "Destruição sob Demanda" funciona como uma versão bastante simplificada da fórmula dos jogos de estratégia em tempo real, nos quais o jogador converte dinheiro em novas unidades e estruturas, e monta sua base em tempo real. Só que desta vez o dinheiro surge a cada inimigo dizimado, e as estruturas e unidades encomendadas servem como soluções imediatas para o conflito, sem a pretensão de servirem para formar uma base ou serem usadas a longo prazo. A interface também é bastante intuitiva e prática: o botão Y traz um menu radial com os vários tipos de unidades/estruturas possíveis para aquela ocasião, e os "stick" analógicos servem para definir onde o avião de carga vai joga-las. Reparar um tanque também é um processo que pode ser resolvido rapidamente, com o apertar de um botão.

Mas mesmo que seja óbvio que a estratégia foi colocada como um elemento secundário do jogo, The Outfit peca por ter um combate bastante superficial, repetivido e previsível. Na verdade, quando o jogo apresenta desafios como uma ponte destruída que pode ser substituída por outra sob encomenda, e uma barricada que só pode ser transporta por um ataque aéreo, fica evidente que não há nenhuma escolha estratégica envolvida, mas apenas uma solução linear e a ilusão de que o jogador tem apenas soluções mais exóticas para o típico tiro em primeira pessoa. Jogos como Brothers in Arms envolvem muito mais elementos táticos, embora não tenham a mesma pretensão.

A superficilidade da estratégia não seria tão notada caso The Outfit tivesse uma parte de tiro sólida e divertida, mas não é o caso. Os tiros não têm o menor impacto, são imprecisos e dos mais sem graças. O controle dos veículos é especialmente ruim e deselegante. A não ser por alguns cenários destrutíveis (praticamente nada se comparado a um Black) e pela boa idéia da inclusão de um soldado com lança-chamas, perfeito nas oportunidades confronto a curta distância, não há nada de muito gratificante na destruição de The Outfit.

Há ainda uma história por trás contando as peripécias dos heróis, seus aliados, traidores e do inimigo principal (o mais nazista dos nazistas) através de seqüências não-interativas meio constrangedoras graficamente, embora sejam bem dubladas e tenham algum humor. Os objetivos também sempre mesclam algum drama, mas são sempre comprometidos por um design de fases bastante repetitivo e sem inspiração. Não há muito envolvimento com o enredo e a sensação ao completar as missões é de que apenas dominamos o mapa inteiro e que tudo recomeça na missão seguinte.

Next-gen am cry

Visualmente, The Outfit tem mais semelhanças com os jogos da geração passada que da nova. Alguns objetos muito mal modelados e a predominância de texturas em baixa resolução inclusive levantam dúvidas se o trabalho não foi começado na geração passada e portado forçadamente para o Xbox 360 no último minuto. As animações também são simples e totalmente sem emoção, como demonstra uma missão em que se deve assumir o controle de uma artilharia para abater aviões: eles surgem do céu repentinamente e ao serem abatidos apenas quebram em vários pedaços, sem reproduzir sons realistas, uma explosão ou rastro de fumaça convincente.

Digno da nova geração é apenas a profundidade de campo: os mapas são bastante amplos, e é possível enxergar muito do cenário quando se está nas partes mais altas.

Multiplayer on demand

Se até mesmo as missões do modo principal lembram um jogo on-line, o multiplayer é o que mais importa em The Outfit. O jogo é bastante completo em seus modos on-line e oferece até as doze missões principais para serem jogadas com um amigo, cooperativamente.

O clássico "deathmatch" aqui é acompanhado de dois modos originais: "destruction" (vence quem destruir mais e acumular mais créditos no final) e o "strategic victory", que envolve dominar todos os pontos do mapa e protege-los do inimigo.

O fato de poder construir unidades diferentes, dependentes da captura de uma estrutura no mapa, dá uma dinâmica interessante ao combate e estimula a criação de táticas para a equipe. Também é divertido poder dominar uma estação de rádio para grampear a comunicação do inimigo e descobrir o que eles estão tramando através do microfone do Xbox Live.

Todos os modos multiplayer seguem uma estrutura bem parecida com a do modo para um jogador ¿ e são mais divertidos que esse, embora ainda muito genéricos e abaixo do padrão dos bons jogos multiplayer online do Xbox.

The Outfit é um jogo bem intencionado e conceitualmente interessante, mas que não consegue se destacar em nenhum aspecto. Os elementos de estratégia são bastante superficiais, a variedade de unidades e estruturas é desperdiçada pela má jogabilidade (atirar e pilotar veículos não tem a menor graça) e as missões são extremamente repetitivas, mais ou menos como o modo offline de Battlefield, sem a mesma competência técnica. Como a maioria dos jogos do Xbox, o multiplayer via Xbox Live ainda traz alguns momentos de diversão, mas apenas para o jogador mais carente.
 

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