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Depois de sobreviver a um naufrágio e acordar em uma ilha deserta, o jovem e altruísta Keith explora a praia para descobrir que, além dele, uma bela garota se salvou e é a única pessoa viva daquele lugar paradisíaco. O que os dois imediatamente pensam em fazer? Apenas sobreviver, é claro.
Sem qualquer pretensão de romance, Lost in Blue é uma aventura de sobrevivência para o Nintendo DS onde cada dia é uma peleja, e qualquer desperdício de energia pode ser fatal. A jogabilidade, que lembra jogos como Harvest Moon e Animal Crossing, se baseia em rotinas mundanas de comer, beber e dormir, com uma dose exploração e um tema que pode ser encarado como puro tédio ou como uma grande aventura.
Eu como, eu durmo...
Perdidos na ilha, Keith e sua companheirinha Skye precisam satisfazer três necessidades básicas antes de buscarem uma possível volta para a casa: beber, comer e descansar. Se algum desses parâmetros cair para zero, a energia vital começa a despencar até que eles morram.
O ecossistema é até bem generoso com nossos pequenos náufragos, e a alguns metros da praia, há uma caverna que pode servir de abrigo, além de algumas opções fáceis de alimentos, como mariscos, algas e cocos. Galhos e cascas secas de árvores também podem ser encontrados e usados na clássica fricção para criar fogo.
Os primeiros dias são os mais sacrificantes para os personagens, que devem comer qualquer coisa e dormir sem o menor conforto, e também para o jogador, que não pode vacilar um minuto sequer se quiser manter seus controlados vivos. Lost in Blue é imperdoável no começo, quando os estômagos estão bem vazios e o cansaço não permite pausas para pensar ou procurar grandes quantidades de alimento, mas com o passar dos dias, se torna mais tranqüilo e divertido.
Trata-se de um jogo bastante machista também. Skye, a garota, é completamente míope e dependente de Keith, apesar de, à noite, gostar de contar histórias de como seus pais a estimularam a ser independente. Por causa da vista ruim, ela não consegue sair da caverna sozinha, e deve ser guiada de mãos dadas, como se fosse a Yorda de ICO. Comer e beber sozinha, ela só fará depois de algumas semanas, mas talvez essa seja apenas uma adequação ao nível de desafio e boa fluência da jogabilidade. Mas o mais interessante é que Skye é uma dona de casa nata (ou dona de caverna, pode ser...) e passa os dias ao lado do fogão, ou fazendo pequenas tarefas domésticas, como criar cordas e cestas a partir de cipós. Seu papel não deve ser subestimado, entretanto, pois quando aprende a cozinhar um bom Aruanã salgado com algas e salada de coco, o dia costuma ser bem mais produtivo para seu companheiro.
De estômago cheio, Keith tem uma ilha a ser descoberta. Lost in Blue, como qualquer filme ou história de náufragos, é uma rotina de revelações. Uma simples pedra encontrada no chão, por exemplo, pode ser afiada e improvisada em lanças, anzóis e flechas. E um cipó servirá para fazer desde cadeiras e uma cama mais confortável a uma prosaica vara de pescar. Explorar a ilha e descobrir novos alimentos e materiais ¿ e várias utilidades para os mesmos ¿ é o grande barato de Lost in Blue.
E o jogo é farto em frutas, peixes, animais, plantas e materiais, o que acaba por criar bom estímulo à exploração. Um dos menus do jogo traz uma espécie de catálogo onde é possível ver tudo o que já descobrimos na ilha, e isso inclui até um livro de receitas para Skye, que pode ser criativa ao misturar ingredientes e temperos para criar pratos novos. Nossa honorável dona de caverna até ganha níveis (invisíveis) de aptidão no fogão, e com o passar do tempo, vai melhorando o sabor das comidas que faz, podendo sair de uma classificação "mais ou menos" para "está uma delícia".
O conforto da caverna é outra coisa que pode subir de nível no jogo. À medida que descobrem materiais, os náufragos poderão criar itens e decorar o ambiente com prateleiras, recipiente para armazenar água (um latão encontrado na praia) e até um defumador para dar mais sabor às carnes, e ainda preservá-las por dias. Minha caverna conta com tudo isso, e ainda tem uma cabra domesticada na porta. Fêmea, é claro, para dar aquele delicioso leite de cabra do café da manhã.
A porção exploratória de Lost in Blue é menor que a rotina de sobrevivência. O cenário da ilha é razoavelmente pequeno, mas a proporção entre a passagem do tempo e a distância que se anda nela dá a sensação de ser um ambiente maior, do tipo impossível de se percorrer em apenas um dia. Na maior parte do jogo, estaremos voltando a cenários já descobertos para usar novos itens e descobrir novas possibilidades.
Se a rotina é divertida ou chata depende de gosto pessoal, mas é inegável que a interface às vezes força repetições desnecessárias, como por exemplo, ter que clicar para subir e descer Skye de cada plataforma do cenário quando viajando com ela, ou ter que entregar uma fruta por vez a ela quando for necessário alimentá-la separadamente.
Em comparação com outros jogos do Nintendo DS, Lost in Blue é bastante longo, podendo durar mais de 20 horas. E por ser uma série original do Gameboy, o uso dos recursos exclusivos do portátil não chega a fazer tanta diferença: existem apenas algumas bobagens como soprar no microfone para fazer o fogo pegar, ou esfregar a tela para desenterrar uma batata da terra, ou uma concha sob a areia.
Lost in Blue traz ao Nintendo DS um tema bastante original e uma jogabilidade, baseada em rotina, que pode dividir opiniões. Por um lado, é uma repetição das tarefas mais banais como comer e dormir, por outro, uma simulação de sobrevivência, cheia de possibilidades e com ótima ambientação. Um jogo a ser descoberto, de qualquer maneira.
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