Análise
Electroplankton
 
Bruno Abreu
 
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Electroplankton, segundo a Nintendo, é arte. O autor da obra em questão é Toshio Iwai, um artista multimídia japonês famoso por instalações que misturam imagem e sons com interfaces de interação com o expectador. Entre seus trabalhos mais curiosos estão um aparelho que revela o som das luzes e SimTunes, um jogo/sintetizador infantil publicado pela Maxis (a do The Sims) dez anos atrás.

O "jogo" (na falta de uma palavra melhor) de Nintendo DS segue o mesmo conceito dos outros trabalhos de Iwai e nos apresenta, nas duas telas do portátil, imagens submarinas onde plânctons "cute" podem ser manipulados com a caneta "stylus" para criar algumas composições musicais minimalistas e relaxantes.

Plânctons performáticos

Electroplankton é dividido em dez mini-aplicações, cada uma representada por um tipo de plâncton:

Tracy ¿ Esta simpática forma de vida se movimenta em traços feitos com a caneta "stylus", e faz sons cintilantes de acordo com a forma com que o traço foi realizado. Se fazemos um traço rápido, ele se move rápido e faz um som rápido, se desenhamos lentamente, ele vai tocando suas notas devagarzinho. E a tela é mapeada de acordo com o tom, então a direção das linhas também produz sons diferentes em Tracy.

Hanenbow ¿ Este plâncton parece um girino em um rio. A tela é verde e tem uma planta desenhada onde as folhas funcionam como instrumentos musicais. Os plânctons são lançados de uma folha e caem sobre a planta, picando e produzindo sons. A princípio, este modo produz composições musicais totalmente aleatórias, mas podemos alterar a freqüência com que os plânctons são lançados, bem como a inclinação de cada folha, para criar algo mais planejado. As folhas acertadas vão ficando vermelhas, e se a pessoa criar um layout que permita deixar todas vermelhas ao mesmo tempo, uma flor irá brotar no alto.

Luminária ¿ Um plâncton cintilante, corre pela tela e muda de direção de acordo com setas que podem ser alteradas a gosto. São quatro criaturinhas, cada uma com um som peculiar, e juntas produzem agradáveis melodias. É interessante que este plâncton se trata, na verdade, de uma versão para Nintendo DS de uma instalação de Toshio Iwai chamada "Composição na Mesa".

Sun Animalcule ¿ Este é bem interessante. Fazemos pequenos pontos na tela, e deles nascem plânctons em forma de sol que pulsam produzindo sons em loop. Com o tempo, eles evoluem para luas, e mudam seus sons. A tela é vermelha e pode ser povoada de plânctons pulsantes, dando uma boa sinfonia.

Rec Rec ¿ Como o nome sugere, este plâncton grava o som que fazemos pelo microfone do Nintendo DS. Há uma batida no fundo, e o resto funciona como um seqüenciador com quatro canais dando loop nos samples que criamos. Dá pra fazer algumas bizarrices.

Nanocarp ¿ Bonitinho, mas ordinário, este plâncton aparece na tela nadando em um grupo de dezesseis. Encostando a caneta na tela criamos ondas que balançam os microorganismos musicais, criando composições bem aleatórias. Com as ondas, os plânctons também se movem e se reorganizam de forma caótica pela tela. O microfone do DS pode também captar o som de palmas, fazendo com que os bichinhos se organizem formando desenhos.

Lumiloop ¿ Um disco, um sorriso ¿ é a forma deste estranho plâncton que pode ser rodado com a caneta como um DJ roda um disco. Ao girarem, eles emitem um som que vai ficando mais alto na medida em que acelera. Círculos coloridos são emanados de acordo com a velocidade, e pode-se girar ao contrário para produzir um som diferente.

Marine-Snow ¿ Vários plânctons em forma de flocos de neve povoam a tela. Quando tocamos em um, ele produz um som parecido com um piano. O próximo a ser tocado faz seu som e troca de posição com o plâncton anterior, o que cria resultados bem imprevisíveis e muito interessantes.

Beatnes ¿ Batida, do NES. Ok! São cinco plânctons com enormes rabos compostos de pequenos losangos. Cada um faz um som do NES de 8 bits, e cada parte do corpo é uma nota musical. Músicas clássicas de Super Mario e outros jogos de NES tocam como acompanhamento.

Volvoice ¿ Este é mais um que usa o microfone para samplear a voz do usuário. Você clica em um dos vários plânctons disponíveis e ele grava sua voz para depois repeti-la das mais variadas formas: distorcida, duplicada, ao contrário etc. O simpático plâncton incha e também faz sincronismo labial para aquilo que você falou.

Tudo pode ser curtido em dois modos de jogo: Performance e Audience. No primeiro, controlamos todas as variáveis possíveis, enquanto no segundo quase que apenas assistimos, como se fosse uma demonstração com um mínimo de interação sendo feita pelo direcional do DS.

Electroplankton é mesmo arte e, como tal, o que importa é a contemplação, ou a experiência. O componente interativo é subjetivo e não sustenta uma durabilidade muito além de algumas horas. Talvez o mais correto seja encará-lo como uma curiosidade, um souvenir cool do Japão.

O maior problema é que Electroplankton não é jogo, mas custa o preço de um. 45 dólares, no Japão (não há planos de sair no resto do mundo), é o que se paga pelo privilégio de tocar a obra de arte nada exclusiva de Toshio Iwai. Mas pelo menos, é uma boa arte, desde a embalagem aos desenhos monocromáticos simples, organismos fluorescentes super-cute produzindo sons cristalinos na tela do DS. Como consolação, vem também um fone de ouvido azul transparente no pacote.

O apelo comercial é mínimo, mas produzir um experimento de um artista como Iwai deve render pelo menos boa propaganda institucional para a Nintendo. Mas ainda, é admirável que ela tenha tido as bolas para investir em um lançamento desta categoria.

Electroplankton pertence às salas de arte, e não às prateleiras de um gamer. Não há jogabilidade, mas apenas contemplação e apreciação estética nas dez pequenas obras contidas neste cartucho. Se você se interessa por coisas japonesas bonintinhas ou quer ver como os videogames podem expandir para rumos totalmente novos, vale a pena conhecê-lo. O maior empecilho é o preço da oportunidade: US$45.
 

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