Games
Segunda, 27 de agosto de 2007, 14h15  Atualizada às 14h01
Nokia tenta de novo o mercado de jogos para celulares
 
Brad Stone
 
The New York Times
N-Gage ’reinventado’ entra em vendas nesta semana buscando redimir o fracasso inicial
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A Apple teve o Newton. A Sony se deu mal com o Betamax. A IBM entrou pelo cano com o PCJr. Toda gigante da tecnologia tem um ou dois produtos fracassados em seu passado, e adoraria que o mundo os esquecesse. Mas a Nokia, a maior fabricante mundial de celulares, prefere que todos se lembrem de seu mais famoso fracasso: o N-Gage, uma combinação de celular e aparelho de videogame, de formato semelhante ao de uma concha, lançado em 2003.

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Esta semana, a Nokia, sediada em Espoo, na Finlândia, pretende relançar o N-Gage como serviço de jogos para múltiplos usuários, como parte de sua popular linha de celulares inteligentes. O serviço oferecerá títulos de produtoras importantes como a Electronic Arts, bem como de empresas menores, a exemplo da Digital Chocolate, que se especializam no segmento de jogos para celulares.

Os proprietários dos celulares dotados do software N-Gage poderão jogar videogames com amigos, testar, comprar e recomendar novos títulos com seus celulares, e participar de grandes torneios.

Tomi Huttula, gerente de produto da Nokia, disse que o velho N-Gage, de 2003, e seu sucessor, o N-Gage QD, de 2004, eram boas idéias lançadas antes da época. "Hoje, os celulares ganharam muita capacidade. Os problemas gráficos foram removidos. E os aparelhos estão conectados o tempo todo, agora, e as pessoas sempre os carregam com elas. Os celulares se tornaram o aparelho perfeito para jogos".

O N-Gage original e seu sucessor estavam longe de perfeitos. Os celulares tinham por objetivo primário competir com videogames portáteis como o Nintendo DS e o PlayStation Portable, da Sony. Conveniência, aparentemente, foi algo que os projetistas decidiram desconsiderar. Os proprietários tinham de remover a bateria do aparelho para inserir os cartuchos de jogos, e levantar o volumoso aparelho até a cabeça e segurá-lo de lado, caso desejassem mesmo telefonar. Os devotos dos eletrônicos apelidaram o modelo de "Frankenfone".

"Era um aparelho de videogames medíocre e um celular não muito bom", diz Brian O¿Rourke, analista da In-Stat, uma empresa de pesquisa. A Nokia terminou por vender mais de dois milhões de N-Gages em todo o mundo, e lançou 50 títulos para o modelo. Mas as vendas ficaram bem abaixo das expectativas, e a produção do modelo foi suspensa em 2005.

Desde então, os jogos para celulares se tornaram um mercado aquecido. Um quarto dos usuários de celulares nos Estados Unidos e Europa Ocidental usam seus celulares para jogar pelo menos uma vez por mês, de acordo com a M-Metrics, uma empresa de pesquisa de mercado. O mercado mundial de jogos para celulares atingirá os US$ 4 bilhões este ano, e mais que dobrará em 2010, de acordo com o grupo de consultoria Ovum.

A Nokia, que detém 37% do mercado mundial de celulares, começou a planejar seu retorno ao mundo dos jogos para celulares logo depois de cancelar a linha N-Gage.

Em um esforço de reviver a idéia, ela procurou ajuda da Ideo, uma empresa do Vale do Silício cujos sucessos incluem o mouse original dos computadores Apple, o organizador pessoal Palm V e a cadeira de escritório Leap, da Steelcase.

Em 2005 e 2006, membros da equipe N-Gage da Nokia trabalharam em colaboração com designers da Ideo, em San Francisco. Os grupos realizaram viagens de pesquisa a seis cidades do mundo, entre as quais Barcelona, Tóquio e Xangai, para estudar como as pessoas usavam jogos em seus celulares, e o que desejavam deles.

Os pesquisadores descobriram que os usuários preferiam jogar contra amigos, ou pelo menos conhecer o nível de habilidade dos oponentes. Como resultado, o novo software permite que o usuário veja que jogos os amigos têm em seus celulares, e que verifiquem se estão online. O serviço também permite que as pessoas verifiquem a melhor pontuação de um oponente em um jogo.

Os pesquisadores também perguntaram aos usuários sobre o que os incomodava nos jogos para celulares, e uma das respostas mais freqüentes era a de comprar um título que se provava decepcionante. No novo serviço N-Gage, os usuários poderão testar jogos gratuitamente antes de decidir pela compra; a oferta de títulos se inclinará a jogos mais casuais, como o Bejeweled, um popular quebra-cabeças, e títulos semelhantes. A Nokia ainda não determinou preços.

A Ideo também percebeu que os usuários nunca haviam descoberto boa parte dos recursos do N-Gage original, e por isso ajudou a Nokia a criar atalhos na tela, que fornecem informações diretamente, sem que o usuário precise percorrer cardápios longos.

A Nokia vai relançar o N-Gage formalmente esta semana, com novas produtoras oferecendo títulos e novos modelos de celulares dotados de recursos especiais para jogos. A empresa diz que já vendeu mais de 125 milhões de celulares inteligentes série 60, em todo o mundo. Os novos jogos do N-Gage chegarão ao mercado antes do final do ano, inicialmente em apenas alguns modelos de celular, mas a empresa pretende ampliá-los a todos os série 60 no ano que vem.

O que está em jogo é mais que o mercado de jogos, que respondeu por porção bem pequena dos US$ 54 bilhões em faturamento da Nokia no ano passado. Tuong Huy Nguyen, analista do Gartner Group, disse que todos os participantes do complicado ecossistema da telefonia móvel - operadoras de telefonia como a Verizon Wireless e AT&T bem como fabricantes de aparelhos - estão tentando controlar as interações dos consumidores em áreas como os jogos para celulares e o download de música.

"Todos tentam oferecer experiência completa aos consumidores porque, se as pessoas ganharem conforto no uso desses serviços em seus celulares, o ecossistema todo receberá mais dinheiro", disse.

Nguyen disse também que a Nokia provavelmente tinha outro motivo para reinventar e resgatar o N-Gage: redimir um fracasso. "Isso decerto está nas cabeças das pessoas, por lá".

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times

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