Análise
Rocky
 
Bruno Abreu
 
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Se a Rage Software precisava de um pretexto para criar um jogo de boxe, ela não poderia ter escolhido algo melhor que a licença de Rocky. O filme, vencedor do Oscar de 1977, é recheado de drama e personagens interessantes, a começar pelo próprio Rocky Balboa, o estereótipo do sujeito discriminado pela cara de tapado, o ¿underdog¿ americano que tem a oportunidade para provar o seu valor e, no final, é claro, triunfa.

Rocky, o jogo, aproveita ao máximo a licença do filme. Absolutamente tudo de memorável da película está inserido de alguma forma no jogo, do cachorro de Rocky (que se parece bastante, fisicamente, com o dono) e todos os lutadores (Apollo Creed, Cluber Lang, Ivan Drago etc), até grito de ¿Adriaaaaaannn, eu te amo¿. E por trás de tudo isso há também um ótimo simulador de boxe.

Rocky rocks

A parte mais interessante de Rocky é o ¿Movie Mode¿. Este modo segue o roteiro da película, com o jogador lutando no papel do Garanhão Italiano de Rocky I a Rocky V, acompanhando interlúdios cinematográficos que narram os principais eventos dos filmes.

No começo, como Rocky I, você é um pugilista cheio de determinação, mas com deficiência em velocidade, resistência etc. Sua primeira luta, contra Spider Rico, acontece num ring amador da Filadélfia, exatamente como no filme (inclusive o primeiro pan da câmera no jogo imita o do filme). Vencida esta luta, Balboa logo estará participando de eventos em barzinhos (com uma platéia que atira latas de cerveja no lutador que está apanhando) ou ringues mais profissionais, até concluir o ¿estágio¿ enfrentando o fanfarrão Apollo Creed.

A cada luta vencida você pode fazer uma pausa para duas sessões de treinamento em especialidades que são como mini-games. Pular corda, por exemplo, é um jogo de ritmo para melhorar sua resistência. Nele você tem que apertar um botão na hora certa (toda vez que a corda passar pelo ponto do salto), e às vezes ousar umas combinações de botões para intensificar o resultado do exercício. Outro interessante é de socar o saco de pancada, se movimentando em volta dele, para ganhar agilidade nas pernas. Na ¿fase¿ Rocky I você faz este treinamento no frigorífico de Paulie, socando a carne. Um exercício perfeito rende 10 pontos para a habilidade a ser desenvolvida.

Figurinhas carismáticas como o ranzinza Micky e, mais tarde, Apollo Creed, estão sempre presentes no treinamento, como os técnicos que tentam extrair o melhor desempenho de Rocky Balboa. O velho Micky é muito bem caracterizado e deveras engraçado, sempre vestido com um suéter e aquela touquinha simpática. Seus gritos de ¿Come on Rocky¿, ¿Don't get cocky¿ etc são bem bacanas, com a voz idêntica à do filme.

A ambientação é mesmo o grande diferencial do boxe de Rocky. A apresentação dos lutadores em especial é fabulosa. Rocky sempre entra no ringue dando soquinhos no ar, enquanto a música tema ¿Gonna Fly¿ toca. Apollo Creed, mais um publicitário que um pugilista, tem uma entrada apoteótica, sobre um carro alegórico, mandando beijinhos pra torcida. No ringue, os apresentadores anunciam ao microfone cada lutador, sempre de maneira diferente. Rocky por vezes é ¿o filho orgulhoso da Filadélfia¿ ou ¿o Garanhão Italiano¿; Apollo Creed é ¿The Master of Disaster¿ ou ¿The King of Sting¿, e Ivan Drago pode ser anunciado como ¿The Siberian Express¿ ou ¿Death From Above¿.

Sangue, suor e saliva

O jogo em si é jóia, mas tem falhas. Rocky é um simulador de boxe com todos os jabs, uppercuts, ganchos e diretos que se tem direito (falta apenas o clinch, mas tudo bem), um tanto realista, embora a luta seja no estilo dos filmes: sem nocaute relâmpago, e com o lutador indo à lona somente depois de levar uns mil socos.
O apertar indiscriminado dos botões pode até servir bem para um novato no nível mais fácil, mas para vencer nos modos mais difíceis o jogador necessita de desenvolver um pouco de tática e aprender quais são os pontos fortes do seu lutador, e os fracos do adversário.

Na tela há uma barra de energia e outra que determina sua condição física. É necessário observar as duas, uma vez que se sua resistência está baixa, você se torna bem mais vulnerável aos golpes do adversário, e menos eficiente ao encaixar os seus. A estratégia básica para descer os sopapos com eficiência consiste em se movimentar bastante e, se possível, levar o adversário para um córner onde ele estará com movimentação limitada.

Todas essas variáveis ¿ habilidades específicas para serem desenvolvidas, lutadores com tipos físicos diferentes e suas conseqüentes táticas no ringue ¿ fazem de Rocky um grande prazer. Porém, no modo de um jogador a diversão pode durar até quando você descobre uma forma de liquidar o adversário sem muito esforço, valendo-se de algumas falhas do sistema de inteligência artificial. A partir daí, a melhor coisa que se tem a fazer é descolar um amigo para curtir o Rocky no modo de dois jogadores.

Outro ponto negativo é a animação dos lutadores, muitas vezes bastante simples. Os golpes felizmente transmitem impacto para o jogador, mas a movimentação bem que poderia ter o dobro de quadros de animação para tornar-se mais natural.

O detalhamento gráfico por sua vez é acima da média, e colabora com a ambientação exemplar dos filmes. Espere ver o adversário expelir sangue e saliva ao receber um cruzado, e hematomas por toda parte. Os interlúdios cinematográficos porém são bem simples e evidenciam as limitações orçamentárias da produção.

O Veredicto: Rocky é um jogo de boxe feito com poucos recursos, mas com muito amor. Embora tenha alguns defeitos, principalmente na inteligência artificial, a jogabilidade interessante, o cuidado com a ambientação, a caracterização dos personagens e o uso de todo o material que a licença cinematográfica pôde oferecer são os elementos que prevalecem. Altamente recomendado para fãs do esporte e do Garanhão Italiano.


 
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