Análise
Oddworld Stranger's Wrath
 
Felipe Menezes
 
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A Oddworld Inhabitants, produtora de jogos como Munch's Odysee e Abe's Exodus, sempre foi admirada pela preocupação em criar jogos de muita personalidade, incomuns e acima da média, mas nunca espetaculares. A promessa é que sempre virá algo excelente, mas, no final das contas, é um jogo bom, divertido, mas aquém daquilo que se esperava.

Com Stranger's Wrath não é diferente. Com um estilo um pouco diferente do que a Oddworld está acostumada a fazer -- direcionado mais para a ação do que para a solução de enigmas -- o jogo tinha tudo para ser o primeiro grande lançamento da produtora. Mas ficou, mais uma vez, na promessa.

Stranger in a strange world

É complicado dar detalhes do enredo de Stranger's Wrath sem conseguir estragar a surpresa. O que posso falar é que começamos o jogo como um ser de origem desconhecida, que parece ter nascido do cruzamento de cachorro com bode, e que ainda tem uma pinta de Clint Eastwood dos tempos de faroeste, e uma voz grossa e rouca que lembra o Vin Diesel com dor de garganta. Stranger é um ser misterioso que vive pulando de cidade em cidade na caça de criminosos. Seus reais objetivos são desconhecidos, mas nosso herói precisa da grana ¿ cerca de 20 mil moolahs ¿ para fazer uma espécie de cirurgia.

Durante muitas horas de jogatina, Stranger's Wrath segue este enredo do caçador de recompensa, sempre ambientado em cenários inspirados no velho oeste, mas, de repente, alguns acontecimentos mudam totalmente o desenrolar da história: A verdadeira identidade de Stranger é revelada e os objetivos mudam completamente. É uma mudança drástica que é bastante interessante, adicionando um bom tempero ao jogo, mas que demora demais a acontecer.

Vivo ou morto, seu traseiro vem comigo

É muito fácil reconhecer um jogo da Oddworld Inhabitants. Eles sempre têm personagens bizarros e desengonçados, diálogos bem humorados, visuais bem feitos e esquisitos, e sempre focam na solução de enigmas, com leves pitadas de estratégia. Stranger's Wrath segue o estilo, mas diversifica a jogabilidade com muita ação, tiro e elementos de plataforma.

Essa mistura de gêneros fica evidente pela troca constante de perspectiva que o jogo nos exige. Para navegar pelos cenários, correr, executar saltos e subir em cordas, a visão em terceira pessoa é utilizada, pois dá uma melhor noção de posicionamento. Este modo também é usado para os combates corpo-a-corpo e para a captura de inimigos. Já na hora de trocar uns tiros, a visão em primeira pessoa é acionada, fazendo com que o Stranger empunhe sua principal arma: A besta de duplos disparos. Neste modo, o jogo vira um shooter, exigindo habilidade, precisão e boa escolha da melhor munição a ser utilizada.

A constante troca de perspectivas ajuda a fazer com que Stranger's Wrath tenha uma jogabilidade variada, com boas opções de ações, mas infelizmente não consegue fazer com que ele não fique repetitivo. Isso acontece porque a primeira parte do jogo, quando Stranger ainda é um simples caçador de recompensas, é longa demais e os objetivos nesta etapa são sempre idênticos. A rotina maçante de ir à cidade, pegar uma missão, matar ou capturar o criminoso e voltar novamente à cidade vai diminuindo gradativamente o entusiasmo com o jogo, e quando chega a segunda etapa, onde a aventura muda completamente ¿ e para melhor ¿, a graça não é mais a mesma.

Outro ponto negativo e que torna Stranger's Wrath uma experiência frustrante é o combate com os chefes. Essas criaturas especiais aparecem sempre rodeadas de inimigos e ainda têm uma pontaria fenomenal: É um tal de morre e tenta de novo que cansa.

Essas lutas com chefes são baseadas em duas barras: Uma de vitalidade e uma de vigor. Se utilizarmos munição de alto poder de destruição, a primeira barra tende a acabar mais rápido e, quando isso acontece, o inimigo morre. Com armas atordoantes, a barra de vigor vai diminuindo até que possamos incapacitar o inimigo momentaneamente e capturá-lo. Quando capturado vivo, o valor de sua recompensa é o dobro, uma vez que o grau de desafio da estratégia de atordoar é bem maior.

O conceito de duas barras de energia para os atributos vitalidade e vigor é aplicado também ao nosso herói, Stranger. Ao invés de preocuparmos com itens ou locais de cura, tudo que precisamos fazer para curar os ferimentos sofridos na jornada é apertar um botão e transferir a energia do vigor para a vitalidade.

Munições que rosnam

Uma das curiosidades de Stranger's Wrath é a munição que utilizamos no arco do nosso herói. Ao invés de granadas e balas, Stranger pega pequenas criaturas dos cenários para serem arremessadas contra os seus inimigos. A princípio, é a proposta parece bacana e muito original, mas não é muito por aí. A utilização prática destas criaturas é exatamente a mesma de uma munição inanimada: As abelhas são como metralhadoras, as aranhas atiram teias que paralisam os inimigos temporariamente, uma espécie de gambá joga o seu cheio para desnortear os inimigos, o morcego explode como uma granada e por aí vai.

O fato das munições serem vivas traz apenas duas pequenas diferenças verdadeiramente: Uma é que elas ficam mexendo constantemente na arma quando não estão sendo utilizadas, fazendo barulhos esquisitos; e a outra é que elas devem ser ¿caçadas¿ no ambiente (apesar de também serem vendidas em lojas). Porém, o sentido de caçar a munição é subjetivo, uma vez que não precisamos nos deslocar até determinado ¿habitat¿ apenas para conseguir as munições-bicho: Elas aparecem convenientemente pelos locais que passamos, bastando atirar na criatura e coletá-la.

Estranho e bonito

A competência visual de Stranger's Wrath é indiscutível. O jogo utiliza muito bem o poderoso hardware do Xbox para reproduzir cenários incrivelmente amplos e com um nível de detalhamento excelente. No início, os ambientes até chegam a parecer limitados, quando o jogo se mantinha fixo no estilo velho oeste, com muita areia, casas velhas, árvores ressecadas e sem muitas cores. Porém mais adiante aparecem vegetações densas, rios, lagos, vilas, castelos, fortalezas e passagens subterrâneas, e as virtudes gráficas de Oddworld desabrocham.

O som também é ótimo, mas existe muito pouca variedade de vozes. Apesar de serem bem feitas (e os diálogos bem humorados), há praticamente um tipo de voz para todos os inimigos e outro para os habitantes das cidades (que, visualmente, também são quase idênticos uns aos outros). Para um jogo que preocupa em criar cenários tão ricos, era de se esperar um carinho extra com a variedade de personagens e de suas vozes.

O Veredicto: Mesmo com um excelente visual, algumas inovações interessantes de jogabilidade e uma história que traz uma reviravolta bacana, Oddworld Stranger's Wrath é um jogo que peca pela repetição e por uma primeira etapa bastante longa e tediosa. Com o tempo, a aventura se torna mais dinâmica e divertida, mas não a ponto de apagar totalmente a má impressão inicial.


 
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