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Mercenários. No Brasil, este termo costuma ser atribuído apenas a jogadores de futebol interessados em bons salários, mas na acepção clássica, o mercenário é aquele soldado free-lancer que topa qualquer parada, desde que bem pago.
A rotina deste soldado de aluguel agora serve de tema para um jogo da Pandemic e LucasArts que mescla dois estilos da moda: a guerra e a exploração livre de Grand Theft Auto. É uma mistura tentadora, mas a execução deixa um pouco a desejar.
Fazemos qualquer negócio
Em Mercenaries assumimos o papel de um soldado lançado em um dos maiores barris de pólvora do mundo: a Coréia do Norte, em um cenário de caos total. Como o CJ de San Andreas, o objetivo é ir de porta em porta em busca de missões que vão lhe render dinheiro e influência.
O contrato primário é capturar ou assassinar 52 militantes norte-coreanos, que são identificados no jogo como cartas de um baralho. Liderado pelo ex-general Choi Song, o Ás de Espadas, esse grupo do mal está quase levando o país a uma guerra de proporções mundiais e cabe às 4 demais facções locais - Aliados, chineses, sul-coreanos e mafiosos russos - impedir que isso aconteça. Para coletarmos informações sobre a localização das cartas no mapa, devemos ir completando uma série de contratos secundários que são feitos diretamente com o líder de cada facção.
Como estas facções têm os seus interesses próprios na queda de Song e a maioria delas é rival entre si, nosso mercenário vai moldando seu relacionamento com elas à medida em que vai completando as missões, privilegiando uma e em detrimento da outra. Isso porque o jogo tem um sistema de pontos de confiança, que vão nos tornando mais ou menos amigos de uma determinada facção. Uma vez que estamos do lado delas, teremos ajuda no fornecimento de itens e no cumprimento das missões. Agora, se perdemos a confiança, acabamos nos tornando uma ¿persona non grata¿ nos seus domínios, situação que só pode mudar se oferecermos uma graninha aos soldados para ¿comprar¿ a confiança de volta. Como sempre, o dinheiro é o que manda.
Sangue por dinheiro
Há quem diga que Mercenaries é um GTA militar. Tudo bem, o jogo lembra muito a série da Rockstar por reproduzir uma área grande e aberta para exploração, por ser pouco linear e por mesclar utilização de veículos terrestre e aéreos com missões a pé. Mas ele está um pouco longe da qualidade dos Grand Theft Autos.
O jogo começa muito bem, dando opção de escolha entre três mercenários ¿ dois homens e uma mulher que, na prática, não são assim tão diferentes. Feita a escolha, somos lançados na área do conflito e logo iremos conhecer as armas, os veículos, explorar os vastos cenários e ver as coisas novas que o jogo tem para mostrar. Seu funcionamento é simples e, na maioria da vezes, as missões se resumem a matar indivíduos, resgatar reféns ou explodir estruturas e equipamentos militares. Acontece que essa graça toda já não é a mesma com algumas horas de jogatina. As armas, apesar de variadas, não têm uma diferenciação nítida uma das outras, que justifique a troca, e acaba que um rifle automático (todos tem mais ou menos o mesmo efeito) e um lança-foguetes é a melhor formação que podemos encontrar - uma vez que podemos carregar apenas duas armas por vez.
A caça às cartas do baralho também se torna repetitiva: Dá a impressão que os inimigos representados pelas cartas de figura (valetes, rainhas e reis) e pelos ases serão bem mais difíceis de capturar que os das cartas numéricas, ou que serão pelo menos mais impressionantes visualmente, mas é tudo a mesma coisa. É como se enfrentássemos um exército de clones e, quando finalmente chegamos no chefe, ele é igual aos outros. Isso trás certa frustração.
Outro ponto que soma à diversidade inicial é o suporte aéreo, que pode ser comprado através de um mercado virtual, acessado pelo PDA do mercenário. Ao invés de aproximarmos de um alvo para destruí-lo, podemos pedir que o local seja bombardeado, aniquilando tudo que se encontra no raio de destruição. Do mesmo jeito que as armas, apesar da grande variedade, os suportes aéreos não têm uma diferenciação muito grande entre eles.
O mercado negro virtual também consegue nos fornecer munição, explosivos, kits médicos e veículos, que são entregues diretamente nos campos de batalha por intermédio de um helicóptero. De acordo com nossa evolução no jogo, veículos de facções diferentes e opções mais completas de equipamentos vão se tornando disponíveis, aumentando nosso poder de fogo em campo.
O sistema de confiança, que é uma das novidades mais relevantes, tem um papel interessante na jogabilidade ao obrigar o jogador a decidir qual lado vale a pena prestigiar mais, e qual não necessita de ser aliado. Estes veículos de facções diferentes existem para que possamos enganar os inimigos, uma vez que nos disfarça de aliados para podermos trafegar livremente em um território hostil.
Um defeito na jogabilidade, que não é muito grave, fica por conta da falta de realismo do jogo ao tentar imprimir um nível de dificuldade mais desafiador. Em certos locais, ao invés de aparecerem centenas de inimigos já no local, apenas 6 ou 8 estão visíveis. De uma hora pra outra, começa a ¿brotar¿ inimigo por toda parte, de trás de objetos, saindo de dentro de túneis e edificações... uma coisa meio bizarra.
Tecnicamente OK
A parte técnica de Mercenaries, no geral, é boa. Os gráficos são bacanas, os veículos têm um bom nível de detalhamento, existe uma boa variação topográfica (montanhas, rios, vegetação, construções, etc) e as texturas também são competentes. Também, existe muita coisa recheando os cenários, como transeuntes, veículos civis passeando, postes de iluminação, cercas, caixotes, barris e soldados para todo o lado. Agora, esse bom visual tem uma distancia de visão restrita demais pelo efeito de névoa, que esconde os ambientes e objetos para não ¿carregar¿ demais o jogo. Quando pilotamos helicópteros então, não dá para ver nada do cenário se subirmos a uns 60 metros do chão. Mesmo com essa limitação toda, a versão para Playstation 2 de Mercenaries ainda tem problemas de queda de framerate (lentidão repentina) e pop-up (objetos que aparecem de repente na tela) -- coisas que não acontecem na de Xbox.
Os efeitos visuais também variam: A fumaça é bacana, o fogo é médio e a água é ruim. A física, que utiliza o conceituado e poderoso sistema Havok, faz com que quase todo o cenário possa ser destruído, o que traz um alto grau de interação. Explodir um caminhão e ver sua carga voando pelos ares, assim como os objetos que estavam ao seu redor, é uma experiência divertida. Essa física só não ficou muito bacana nos veículos, que parecem não terem amortecedores e reagem de uma maneira um pouco afobada aos mais leves movimentos no direcional analógico.
A inteligência artificial é inconsistente. Alguns inimigos, que devem ter olhos de uma ave de rapina, nos identificam de longe e detectam nossa presença com o mais silencioso caminhar, enquanto outros deixam um helicóptero de uma facção inimiga pousar quase em sua frente sem dar um disparo ou não se alardeiam nem com um tanque de guerra explodindo a poucos metros de distância. Agora, duas coisas todos têm em comum: uma precisão de disparos a la Robocop, sendo capazes de acertar um míssil de uma bazooka no nosso peito, mesmo quando estamos em movimento; e uma agressividade máxima ao volante, tentando nos atropelar a todo custo.
Dinheiro a dar com os dentes
O dinheiro, que é o motivo da existência de qualquer mercenário e matador de aluguel, não é muito bem explorado no jogo. Parece que isso é um problema da indústria gamística atual, que não dá à moeda virtual o valor que ela merece, e todos os jogos acabam ficando fáceis demais de conseguir uma grana boa. Não existe mais aquela busca por dinheiro, aquela necessidade de ter que participar de todas as missões possíveis para contar os trocados necessários para a compra uma super arma. Em Mercenaries ser rico só traz infelicidade. O dinheiro sobra, dá pra comprar qualquer coisa a qualquer momento, e com isso até os itens e armas perdem seus valores. Objetivos secundários e vários dos mini-games, como corrida de carros contra o tempo e transporte de containeres por helicóptero, também se tornem um pouco desnecessários por conta disso.
O Veredicto: Mercenaries tenta mesclar GTA e Battlefield, oferecendo muito tiroteio, armas, veículos e equipamentos militares com ambientes totalmente abertos, sem linearidade, que permitem ao jogador explorar e completar as missões de várias formas. Apesar de não ser uma produção muito cuidadosa e com o nível de excelência dos jogos que o inspiraram, Mercs é um bom divertimento, mais que o suficiente para merecer a atenção dos fãs de ação.
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